Setembro de 2010

Quem queres ser quando fores grande?

26 de Setembro de 2010

kit

Diz-se dos budistas que são pessoas mais felizes porque têm a capacidade de viver o presente, o aqui e o agora. Os budistas não ignoram nem menosprezam o conhecimento e experiência adquiridos com o que já passou ou com o que vem a seguir, simplesmente não se deixam dominar por isso. E esse facto, traz-lhes felicidade.
A base desta “teoria” parece simples mas torna-se muito difícil de entender quando a tentamos aplicar às nossas vidas. É difícil não pensar no nosso futuro.

Quando em 2000 comecei a ‘desenhar’ as primeiras peças bitolava-me pelo trabalho dos mais velhos. Era amigo de uma malta do 3º ano e, em particular, os trabalhos do José Cunha inspiravam-me a fazer melhor. O Zé tinha a minha idade – era novo – já tinha estagiado na Mccann e estava quase a sair do IADE quando eu há pouco havia entrado. Ele não me leva a mal se disser que tinha a ambição de conseguir chegar àquele nível, de saber fazer as coisas bem feitas, de saber de ‘vector’ e de ‘imagem’ e de ter a capacidade de encontrar o equilíbrio entre os vários elementos que compõem uma página.
Nunca vi essa ambição como um desafio ou um duelo mas via-me ali. Naquele ponto onde ele estava “no presente onde ele estava”.

A “regra” budista, – viver no presente = felicidade – aplicada de uma forma literal à projecção que fazemos de nós mesmos, é quase irreal, ou no mínimo, difícil de atingir. Mesmo com 20 minutos de meditação diários, e acreditem que tenho tentado, é mesmo muito complicada.
Existem no entanto formas de contornar essa insistente tendência depressiva de nos imaginarmos lá mais velhos, no futuro.
Stumbling on Hapiness” de Daniel Gilbert aborda esta temática da “forma como nos vemos no futuro” de uma forma muito interessante, seguem alguma passagens.

…when brains plug holes in their conceptualizations of yesterday and tomorrow, they tend to use material called ‘today’…
…We assume that what we feel as we imagine the future is what we’ll feel when we get there, but in fact, what we feel as we imagine the future is often a response to what’s happening in the present.

Uhm…

One of the benefits of being a social and linguistic animal is that we can capitalize on the experience of others rather than trying to figure everything out for ourselves.
Uma ideia interessante.

…Yes, our ability o imagine our future emotions is flawed – but that’s ok, because we don’t have to imagine what it would feel like to marry a lawyer, to move to Texas or eat a snail when there are so many people who have done these things and are all too happy to tell us about them.
Teachers, neighbours, coworkers, parents, friends, lovers, children, uncles, cousins, coaches, cabdrivers, bartenders, hairstylists, dentists, advertisers – each of these people have something to say about what it would be like to live is this future rather than that one, and at any point in time we can be fairly sure that one of theses people have actually had the experience that we are merely contemplating….
…When imagination paints a picture of the future, many of the details are necessarily missing, and imagination solves this problem by filling in the gaps with the details that it borrows from the present.

Com base em algumas experiências comportamentais, Gilbert conclui:
This trio of studies suggests that when people a re deprived of the information that imagination requires and thus forced to use others as surrogates, they make remarkably accurate predictions about their feelings, which suggests that the best way to predict our feelings tomorrow is to see how others are feeling today.
Our mythical belief in the variability and uniqueness of individuals is the main reason why we refuse to use others as surrogates. After all, surrogation is only useful when we can count on a surrogate to react to an event roughly as we would, and if we believe that people’s emotional reactions are more varied than they actually, then surrogation will seem less useful to us than it actually is. The irony, of course, is that surrogation is a cheap and effective way to predict one’s future emotions, but because we don’t realize just how similar we all are, we reject this reliable method and rely instead on our imaginations, as flawed and fallible as they may be.

What’s so ironic about this predicament is that the information we need to make accurate predictions of our emotional futures is right under our noses, but we don’t seem to recognize it’s aroma. It doesn’t make sense to heed what people tell us when. they communicate their beliefs about happiness, but it does make sense to observe how happy they are in different circumstances. Alas, we think of ourselves as unique entities – minds unlike any others – and thus we often reject the lessons that the emotional experience of others has to teach us.

Resumindo, não que não tenhamos uma identidade própria, que tenhamos de nos reger pelo que os outros são, não. Temos é uma incapacidade real de nos abstrairmos do que somos no presente, e isso adultera, na maioria dos caso de forma muito enganadora, a forma como nos realizamos no futuro.

Este ano, estive em São Francisco e conheci outro jovem em início de carreira. Chama-se Kit Hinrichs, tem 70 anos e foi sócio da Pentagram durante os últimos 23. Fundou a @Issue, está no painel da AGI, é sócio honorário da AIGA, escreveu dois livros sobre as paixões da sua vida e a descrição do seu CV só cabia neste post em corpo de letra 4 ou talvez menos.
É um jovem que está apenas a começar mas apesar da “tenra” idade, sabe muito bem o que quer para o seu futuro.
Poderia com a escassez de referentes (vivos) que traz a idade da reforma, ir à procura de descanso mas parece-me que se decidiu pelo desafio do picanço, de perceber se ainda consegue, aos 70 anos, ser melhor do que…ele próprio, todos os dias.
Kit decidiu no final de 2009 pôr termo a mais de duas décadas de Pentagram e criou o “Studio Hinrichs“.

Uma coisa é certa, no futuro, não vou querer ter a barriga, mas não me importarei de ter o sorriso, a autonomia e a barba branca exemplarmente aparada.

Inconfiança

20 de Setembro de 2010

O espaço entre a Cagufa e a Cagança.

inconfianca

ilustração: filipe andré alves

É quase sempre um piso cimeiro e numa sala com vistas largas. De dois a cinco a partir pedra, num brainstorm à moda antiga. Enquanto um esperneia o outro puxa, outro defende-se, outro ouve com atenção e as poucas palavras que lhe saem da boca são arrancadas a ferros. O último mantém-se em silêncio.
Na verdade, dentro da cabeça deste último decorre um diálogo estupidificante entre a Cagufa e a Cagança.
Diz a Cagança:
Isto não está a fazer sentido porque estamos a perder o fio à meada.
Responde a Cagufa – Pois, mas o melhor é ficares calado não vão julgar que tens a mania.
Tens razão, mas esta merda está errada e as coisas estão a descarrilar, vou intervir, sinto que posso contribuir.
Sim, mas já pensaste que se calhar és tu que estás errado? Que às tantas estás aí armado aos cágados e até nem tens razão. Fica mas é caladinho que assim ninguém te manca.
Epá sim, mas que mal tem disparar?
Olha tu é que sabes, mas depois não venhas dizer que não te avisei e que ainda te chamam de cagão.
Ficamos num empate técnico e, com isto, o silêncio.

O problema da inconfiança não está nos extremos, está no meio. O problema é intrínseco ao problema.
A inconfiança é um “sempre em pé”, flutuante e indeciso, é a confiança perdida em algo que está certo mas que pode ser entendido como errado. É um “acho” hesitante que dá trunfos à arrogância da “pseudo” inteligência, é a margem para que seja posto em causa. É quando a confiança se deixa desarmar pelo poder de tirar o poder aos outros ou quando a força se deixa derrotar pelo silêncio. Quando as palavras tremem porque já não há sentido na defesa. Quando a cagança se deixa derrotar pela cagufa da cagança. É deixar o “to do” por “not to do”.
O espaço da inconfiança é frágil, a cagança escreve-se com o ego e a cagufa desmonta-se com um sopro.

O silêncio pode levar ao desperdício. É importante estimular a participação e partilha de ideias, é importante registá-las e torná-las presentes. É importante o desbloqueio da não censura. Na participação de decisão e consequente acção – seja numa reunião de trabalho, seja numa discussão de “bola” – é fundamental encontrar o equilíbrio na argumentação. Não achar esse equilíbrio faz perigar a nossa inteligência moral e pode facilmente derrubar uma equipa ou fazer rebentar uma organização. Mas esse equilíbrio nunca está no meio, ele pende para um dos lados. O meio é sempre indeciso, é o “não é carne nem é peixe”.

No processo de tomada de decisão, há que deixar cair o prefixo “in” sem desconfiança. A confiança, essa, explica-se com “porquês”.

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